Flying Circus: Monty Python e o Esquete do Canibalismo

O programa Monty Python’s Flying Circus estava sendo acusado de ser nojento e ultrapassar os limites do que é aceitável pelos próprios produtores da BBC.

Então, o que eles fizeram? Pararam de ultrapassar os limites? Não!

Eles pensaram “Ah, o nosso programa é nojento? Ele ultrapassou os limites do que é aceitável? Então vocês não perdem por esperar!”.

E, no dia 22 de dezembro de 1970 foi ao ar o “Esquete do Canibalismo”, do episódio Royal Episode (episódio 13 da segunda temporada).

Nesse episódio, John Cleese não começa o programa com o seu tradicional “E agora para algo completamente diferente”. Em vez disso, ele diz que a Rainha Elizabeth II vai assistir ao programa em algum momento que eles não sabem qual é.

Então, tem início uma sequencia de abertura totalmente diferente, com temas reais menos nonsense que o usual, e uma música-tema diferente.

CASO REAL
O Esquete do Canibalismo é inspirado no caso jurídico-criminal “R vs Dudley and Stephens”, famoso por envolver um ato de canibalismo que aconteceu, em tese, por necessidade.

Aconteceu o seguinte: em 1884, quatro sobreviventes do naufrágio da embarcação Mignonette estavam à deriva num bote no meio do nada, quando o comandante Dudley tomou a decisão de matar o camareiro Parker para que os demais tripulantes pudessem alimentar-se de seu corpo, mantendo-os vivos à espera de um resgate.

MONTY PYTHON
O esquete do programa mostra cinco marinheiros em um bote salva-vidas. Só que eles se embaralham todos ao dizer suas falas, que o esquete tem de ser reiniciado três vezes.

Os personagens, presos no barco e famintos, decidem recorrer ao canibalismo.

monty python cannibalism

O capitão (John Cleese) é o primeiro voluntário a ser vítima, mas é esnobado por dois marinheiros (Eric Idle e Graham Chapman), que preferem comer o Johnson (Terry Jones). O almirante (Michael Palin) se recusa a comê-lo, porque ele não é kosher (alimento da lei judaica), e que prefere comer o marinheiro Chapman.

Todos os marinheiros começam a discutir quem come quem, até que chegam a uma solução: comer a todos misturados com abacates e pêssegos em lata, que eles trouxeram no barco. O ápice do absurdo é quando Palin chama a garçonete (Carol Cleveland), que chega e anota os pedidos, gerando vaias da plateia.

Então, o locutor lê uma carta enviada por um telespectador:

“Caro senhor, estou feliz em saber que o seu público desaprova esse esquete tão fortemente como eu. Como um oficial naval, abomino a implicação de que a Marinha Real é um paraíso para o canibalismo. É sabido que temos todos os problemas desse tipo sob controle, e que é a Aeronáutica que agora tem as maiores vítimas. Ass: Captão BJ Smethwick, em um molho de vinho branco com cogumelos e alho”

Thiago Meister Carneiro

Jornalista Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 38 anos na cara. Às vezes grava o podcast Pythoneando, e às vezes assiste Monty Python na Netflix. Autor do livro "A História (quase) Definitiva de Monty Python"

2 thoughts on “Flying Circus: Monty Python e o Esquete do Canibalismo

  • 29 de setembro de 2017 em 22:56
    Permalink

    Outra esquete que envolve canibalismo é da funerária, em que o gerente propõe que se coma o corpo da mãe do cliente…
    Não lembro em qual temporada está a esquete, mas eles brincam também com as reações do público. Nessa cena, há uma plateia, uma claque, que depois de muitos absurdos muito loucos (o corpo da mãe está num saco, o dono da funerária começa a propor acompanhamentos e o cliente começa a salivar e etc etc etc), se revolta, desce ao palco e começa a agredir os atores. Parece real a tal revolta, até que entra o cartão da BBC e um final nonsense (ah! não diga?) termina a esquete.

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