John Cleese Vai Lançar Mais Um Livro

john cleese entrevistaPor conta do lançamento da sua autobiografia “Ora, como eu dizia…” em Portugal, o python John Cleese deu uma entrevista ao jornal Diário de Notícias.

Segundo o jornal, a entrevista aconteceu por videoconferência, e Cleese parecia Papai Noel (Pai Natal, em Portugal), de tão desfocada que a imagem estava.

“Mas basta ouvir a voz para confirmar que é mesmo o python John Cleese, e não um impostor. Além de que, depois de avisar que é “um pouco surdo”, ele faz piada sobre o fato da câmara não mostrar o entrevistador:

“Só vejo o seu braço direito. É um belo braço direito, mas não quer mostrar o resto?”

O livro é interessante e bem feito. Quem o escreveu?
“Garanto que fui eu que escrevi cada palavra. Aliás, fiquei muito surpreendido ao saber pelo meu editor que 90% das autobiografias não são escritas pelo próprio. O editor apenas ajudou a cortar partes menos boas ou desinteressantes.”

Na última página, você diz que no retorno do Monty Python, em 2014, não estava “nem um pouco excitado” e só pensava em dedicar-se à escrita. É verdade?
“Sim, é verdade. Sempre gostei muito mais de escrever do que de ser ator. No início, escrevia tudo o que representava, até porque era mais bem pago para representar do que para escrever. Gostava das pessoas com quem trabalhava, mas as filmagens eram repetitivas.”

Quem gosta de Monty Python não vê muito o grupo nestas 400 páginas. Não quis misturar?
“Quando comecei a escrever não tinha experiência neste gênero de trabalho tão longo, nem sabia quantas páginas deveria ocupar com cada período da minha vida. Quantas folhas mereciam os dois anos em que lecionei? A solução foi ir escrevendo para ver como ficava e, claro, o texto já estava muito longo quando cheguei ao Monty Python. Então, o editor perguntou se não podia incluir qualquer coisinha sobre eles e respondi assim: ‘Isso dá para outro livro’.”

Então, teremos um segundo livro?
“Até creio que teremos três livros, porque preciso de espaço. Posso confessar que nunca pensei que alguém estivesse interessado em ler sobre o que fiz na vida.”

Você já disse que quer viver até aos 101 anos. Também vai escrever as suas memórias lá de cima?
“Estou tentando encontrar alguém que tenha poderes mediúnicos para receber o que ditarei lá de cima.”

Em cada espetáculo do Monty Python Live (Mostly) tinha milhares de pessoas assistindo. O Monty Python está vivo?
“Parece que sim. E o mais extraordinário é ser tão popular em países que não falam o inglês. Não me surpreende que gostem nos Estados Unidos, no Canadá ou na Austrália, mas houve uma adesão gigantesca de pessoas de outros países. Vieram fãs da Escandinávia, do Egito, de Israel.”

Monty Python ainda tem lugar no mundo de hoje?
Não penso que o Monty Python possa voltar, porque seria necessário um grande investimento, e quem tem dinheiro ficaria muito nervoso com a nossa forma louca de trabalhar. É próprio da natureza humana tentar controlar tudo para que não corra errado, portanto não devemos ter esperança num retorno, mesmo que o que façamos continue divertindo muitas pessoas.”

O humor está mais restritivo?
“O pensamento das pessoas vai mudando. Muitas das piadas sexuais tornaram-se machistas e as piadas sobre questões raciais deixaram de ser aceitas há algum tempo. No entanto, a linguagem ordinária é muito popular. Ou seja, não há consistência nestas mudanças.”

Fala muito mal da Bíblia no livro. Não tem medo do castigo divino?
“Não, se for o Deus que penso que é.”

Tipo bom rapaz?
“Creio que é um bom Deus. Há quem diga que é bom rapaz, mas não quer se meter em trapalhadas.”

No filme A Vida de Brian, vocês fizeram uma crítica à religião. Também seria impossível agora?
“O único problema seria a nossa segurança física se fizéssemos essas piadas contra o islã.”

Foi professor em duas ótimas universidades. Se recomeçasse tudo, o que preferia ser: professor ou ator?
“Nenhum deles. Preferia ser escritor, já que as pessoas que mais respeito têm essa ocupação.”

É verdade que declinou a Ordem do Império Britânico?
“Não é verdade, o que se passou foi que perguntei se poderia me chamar a mim próprio como Comandante Cleese e me disseram que não. Então, perguntei de que império britânico estávamos falando?

Nomeie três heróis para você…
“Provavelmente Carl Jung, porque é um homem extraordinário; Mark Twain, o americano que escreveu com mais humor… Quem mais? Tenho o impulso irresistível de nomear também o meu pai, porque era um homem bom e decente.”

E entre os humoristas?
“Os comediantes do início de Hollywood, que inventaram as regras básicas da comédia: Charlie Chaplin, Buster Keaton, W.C. Fields, os Irmãos Marx. Do meu tempo: Peter Cook, Spike Milligan, Peter Sellers e Steve Martin. E gosto muito dos filmes Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick, e a Primeira Página, de Billy Wilder, que são duas comédias fabulosas.”

Thiago Meister Carneiro

Jornalista Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 38 anos na cara. Às vezes grava o podcast Pythoneando, e às vezes assiste Monty Python na Netflix. Autor do livro "A História (quase) Definitiva de Monty Python"

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