Terry Gilliam Contou a Frase que Quer em seu Túmulo

Ontem, o jornal espanhol El País publicou uma entrevista com Terry Gilliam, onde ele falou sobre humor atual, os AVCs que sofreu e, principalmente, de seu mais recente filme “O Homem Que Matou Dom Quixote”.

Acompanhe:

O término da produção do filme é uma vitória dos quixotes sobre os sanchos?
“É uma vitória dos quixotes sobre as pessoas prudentes e más. Quando o projeto saiu do papel há 20 anos, o mercado se assustou. Me disseram que era uma ideia velha. São muito rápidos em desestimular o que fazem”

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Acabou se referindo ao projeto como uma doença a que tinha que se livrar.
“Era um tumor cerebral. Era como uma mulher que um dia se encontra grávida e, 25 anos depois, continua grávida. Tem que dar à luz!”

Parece curioso que o cineasta, no filme, seja Sancho. Onde você se encaixa?
“Quixote é o filme, não eu. Eu sou Sancho, o pragmático que tem que fazer o filme e que acaba um pouco louco também”

Negar-se a aceitar os limites da realidade, como Dom Quixote, é próprio do artista?
“Sim. O mundo é o que é, mas os quixotes o veem de outra maneira. Os livros e os filmes te convertem em outra pessoa. Se te limita a aceitar a realidade, te convertem em um banqueiro”

Essa é a chave para a criatividade?
“Tem algo de arrogância também, acreditar que tem algo que vale a pena dizer [risos]. Esse é o problema. Quando fazemos um monte de filmes que as pessoas gostaram, ficamos um pouquinho arrogante. Sempre lutei pelos meus projetos em Hollywood, mesmo que fossem erros, porque acredito que meus erros são mais interessantes que os erros dos executivos dos estúdios”

Parece que seus velhos filmes seguem atuais?
“Desde sempre. A vida de Brian, por exemplo, cada dia é mais atual. Me pergunto se existe um nível subconsciente no que eu trabalho que absorve muitos detalhes do mundo real, e eu os uso sem saber. Eu só sou a mão que escreve, o filme está se produzindo por si mesmo”

E o AVC que sofreu depois de terminar a produção de Dom Quixote?
“Tive dois”

Verdade?
“O mais recente foi muito preocupante. O primeiro foi quando o produtor Paulo Branco não conseguiu o dinheiro necessário para terminar o filme depois de quatro meses de trabalho. Não sabíamos o que fazer. Então sofri um derrame. Perdi um quarto de visão periférica do lado esquerdo. E perder visão é uma merda para um diretor visionário [risos]. Uma manhã, me levantei para escrever em meu computador e não podia ver minha mão esquerda. Então, faz algumas semanas, quando tinha que estar me preparando para ir a Cannes, meu genro veio em a casa e viu que eu tinha algo de estranho no rosto. Não era realmente um derrame, era algo mais raro. Uma obstrução da artéria espinhal perfurante, ou algo assim, que tinha obstruído determinadas partes do meu cérebro. Sigo vivo, mas com alguns sinais alarmantes”

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O que te fez seguir com o projeto Quixote todo esse tempo?
“É uma doença, não sei como explicar. É como o Everest. Se é um alpinista, deve escalar o Everest. É muito útil ter uma missão. Eu começo, fracasso, logo faço outra coisa, e a missão segue pedindo a termine”

E o que vai fazer agora que o tumor Quixote já foi extirpado?
“Agora existe um grande buraco negro na minha frente [risos]. Cairei em uma depressão. Cannes me manterá ocupado, depois as estreias mundiais. Mas estou perdido, de verdade. Não sei o que vou fazer, é como a depresão pós-parto”

Poderia existir Monty Python hoje?
“Hoje ninguém quer debater. Tudo é branco ou preto, está comigo ou contra mim. É horrível. As pessoas tem medo de dizer o que pensam”

O humor do Monty Python não tinha limites?
“Podíamos rir de tudo. Temos que ser capazes de rir das coisas. Tenho grandes amigos na comédia que agora tem medo de dizer demais. É horrível, a comédia é muito importante! Derruba o autoritarismo, permite às pessoas rirem das vacas sagradas, faz as pessoas pensarem.

Como gostaria de ser lembrado?
“Não me importa tanto como vou ser lembrado, mas me importa mais os meus filmes. Gosto quando as pessoas me dizem que Brazil – O Filme mudou sua vida. Esqueçam-se de mim, esqueçam-se do velho com o corte de cabelo absurdo e pensem nos filmes. Já sei o que quero no meu túmulo. Quando estava divulgando Brazil – O Filme em algum lugar do Texas, participei de um programa de rádio que atendiam ouvintes. Um ligou e disse: ‘Vi seu filme e ri de espanto’. É isso que colocarei em meu tpumulo: ‘Ri de espanto’ [risos]”

Thiago Meister Carneiro

Jornalista Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 38 anos na cara. Às vezes grava o podcast Pythoneando, e às vezes assiste Monty Python na Netflix. Autor do livro "A História (quase) Definitiva de Monty Python"

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