Nicobobinus, o Menino que Podia Fazer Qualquer Coisa

Terry Jones

Um relato muito bonitinho do python Terry Jones, sobre como virou um autor de histórias infantis:

Quando a minha filha Sally tinha cinco anos, eu disse: “Agora posso ler alguns contos de fadas para ela!”

Então, eu saí e comprei alguns contos infantis dos Irmãos Grimm.

Naquela noite, eu li a Branca de Neve para Sally. Só que, no final da versão original, a madrasta má é obrigada a calçar chinelos de ferro e dança em cima da brasa até cair morta.

Isso me veio como um choque, pois sempre achei que contos de fadas tinham finais felizes. E eu não queria que minha filha de cinco anos de idade fosse dormir pensando: “Graças a Deus, torturaram aquela velha até a morte”.

Foi então que decidi escrever contos de fadas. E as histórias vieram facilmente, eu suponho que seja porque minha idade mental é de cerca de 10 anos.

nicobobinus-livro

Na primeira semana, eu escrevi duas histórias por dia e as lia para Sally na hora de dormir.

Na segunda semana, eu não conseguia manter o ritmo e escrevia apenas uma por dia. Então, comecei a vacilar, e escrevia uma história a cada dois dias. Só que, no final do mês, eu já tinha acumulado 30 histórias.

A história “The Corn Dolly” foi baseada em uma criança que vivia reclamando. “A Bruxa e o Gato do Arco-íris”, eu escrevi para Sally por causa de seu enorme apetite por histórias de bruxas. “Diabo do Dr. Bonocolus” é uma nova versão da lenda de Fausto: aqui, o homem mais inteligente do mundo vende sua alma ao tolo.

Nicobobinus, no entanto, foi diferente. Sally já estava mais velha e queria as mesmas coisas que as meninas de sua idade.

NICO
Nicobobinus, o menino que podia fazer qualquer coisa, veio pelo meu anseio por um mundo mais inocente. O livro começa assim:

nicobobinus-livro-2“Esta é a história da mais extraordinária criança que já mostrou a língua para o primeiro-ministro. Seu nome era Nicobobinus. Ele viveu há muito tempo, em uma cidade chamada Veneza, e ele podia fazer qualquer coisa. É claro que nem todo mundo sabia que ele podia fazer qualquer coisa. Na verdade, apenas sua melhor amiga, Rosie, sabia disso, e ninguém prestava atenção em nada do que Rosie dizia, porque ela estava sempre tendo ideias malucas”.

A amizade de Nico e Rosie é uma amizade apropriada para um menino e uma menina (ela realmente acredita que ele pode fazer qualquer coisa, e porque ela acredita, ele acredita nisso também). Não importa que o mundo ao seu redor seja tão corrupto como sempre foi (o livro está cheio de médicos tortos, reis e figuras religiosas que estão atrás do braço de ouro de Nicobobinus, querendo cortá-lo).

TEATRO
Assim, quando um jovem diretor de teatro chamado John Ward veio até mim e perguntou sobre os direitos de levar Nicobobinus para o palco, em 2010, fiquei surpreso. John estava tão entusiasmado com um possível musical que eu deixei me levar. Em 2013, fui ver uma versão do show, e achei engraçado (claro) e bobo (graças a Deus), mas também, bem, contemporâneo. Uma coisa nova e brilhante feita com toda energia, atenção e capacidade de resistência de uma geração que teve mais dificuldades do que a minha.

nicobobinus-teatro

Recentemente, perguntei à Sally o que ela achava de Nicobobinus. Ela respondeu que não era o seu livro favorito.

Thiago Meister Carneiro

Jornalista Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 38 anos na cara. Às vezes grava o podcast Pythoneando, e às vezes assiste Monty Python na Netflix. Autor do livro "A História (quase) Definitiva de Monty Python"

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