O Debate Polêmico Sobre “A Vida de Brian”

01No dia 9 de novembro de 1979, o programa “Friday Night, Saturday Morning”, apresentado por Tim Rice, realizou um debate sobre o recém-lançado A Vida de Brian, que tinha sido banido por muitos conselhos locais na Inglaterra e causou protestos em todo o mundo, com acusações de blasfêmia.

Em favor da acusação estavam Christian Malcolm Muggeridge e Mervyn Stockwood (bispo de Southwark).

Em sua defesa, os Pythons John Cleese e Michael Palin.

1° ROUND
De acordo com o livro “Monty Python – The Case Against (Monty Python – O Caso Contra)”, de Robert Hewison, o show “começou afável o suficiente, com Cleese e Palin conversando com o apresentador, Tim Rice, letrista do musical “Jesus Cristo Superstar” (que havia sido acusado de blasfêmia uma década antes).

Hewison continua “enquanto um segundo clipe do filme estava sendo mostrado, Stockwood e Muggeridge entraram no estúdio. O efeito completo da entrada do bispo em sua batina roxa e uma robusta cruz foi perdido pelo público, que o encontrou já sentado ao lado de um bronzeado e brilhante Malcolm Muggeridge, quando o trecho do filme acabou. Tim Rice explicou que Stockwood e Muggeridge tinham visto o filme no início do dia”.

O debate aqueceu com o seguinte diálogo:

Muggeridge: Esse filme é tão pra criança (ele menciona a classificação indicativa, 10 anos) que eu não acredito que possa influenciar a fé de alguém.

Palin: É, eu sei que você começou com uma mente aberta, percebi isso.

2° ROUND
Os Pythons pareciam chocados com a agressividade do ataque, especialmente porque todos os quatro tinham se encontrado antes do show, quando não havia nenhum indício sobre o que estava por vir.

Life_of_Brian_bbc_mugg_and_cleese_s

O bispo afirmou que, sem Jesus, este filme não existiria, e ignorou protestos dos Pythons que contestavam dizendo que “o filme era sobre o abuso da fé, não a fé em si”.

Em seus diários, publicados em 2006, Michael Palin escreveu sobre o bispo:

“Ele começou com observações cuidadosamente escondidas em sua virilha, escondidas bem fora do alcance da câmera. Começou com um pequeno sermão dirigido não a mim nem a John, mas ao público. Nos primeiros três ou quatro minutos em que trouxe à tona [o ex-presidente da Romênia] Nicolae Ceausescu e Mao Tse-tung, e não falou nada sobre o filme. Então ele começou a se referir ao filme, nos acusando de fazer uma paródia da obra de Madre Teresa. Ele fez essas observações com toda a parafernália presunçosa e paternalista, acreditando que o público iria dizer que ele está certo, porque ele é um bispo e nós não”.

Muggeridge reclamou da facilidade com que os Pythons “foram capazes de extrair humor do mais solene dos mistérios”.

Ele disse que estava chateado, pois este filme foi denegrindo o único homem que inspirou todo grande artista, escritor, compositor etc.

Cleese fez questão de salientar que houve outras religiões, e que a civilização existia antes de Cristo. Michael Palin diz no livro Os Pythons que, quando Muggeridge disse que “o cristianismo havia sido responsável por tudo de bom no mundo mais do que qualquer outra força na história”, Cleese perguntou “e sobre a Inquisição Espanhola?”

3° ROUND
A plateia parecia estar do lado dos Pythons, especialmente quando Cleese disse: “400 anos atrás teríamos sido queimados por este filme. Agora, eu estou sugerindo que nós tivemos um avanço”.

0Palin lembra que John foi brilhante naquele show. “Lembro que costumava ser a coisa favorita de Douglas Adams na televisão. Ele achou que foi um programa daqueles que prendem a atenção demais, e realmente é”.

Palin também disse que, depois da discussão, os dois adversários disseram “Que patético, sem sentido e juvenil foi isso”.

“Eu não tinha me dado conta de que eles não estavam sendo vingativos, apenas estavam fazendo uma performance para o público”.

O bispo Stockwood estava particularmente chateado com o uso da crucificação no filme, esquecendo-se a distinção entre ele como símbolo cristão e seu uso como um castigo romano tradicional. O debate terminou com o bispo apontando para os Pythons e dizendo “vocês terão suas trinta moedas de prata”.

Nos bastidores do programa, Palin conheceu Raymond Johnston, do Festival Nacional da Luz, um grupo cristão que havia feito campanha para que A Vida de Brian fosse proibido. Em vez de agressões, Johnston foi cortês, dizendo estar envergonhado pelo desempenho do bispo. Palin disse que “[Johnston] tinha percebido que Brian e Jesus eram pessoas distintas”.

CONSIDERAÇÕES
Michael Palin lembrou no The Guardian: “Tínhamos feito a lição de casa, pensando que íamos precisar de bastante argumento contra um duro teólogo, mas que acabou sendo praticamente um jogo desnecessário. Ficamos muito surpresos com isso. Eu não fiquei com raiva da situação, mas daquela atitude e a presunção dele”.

Cleese preferiu resumir tudo dizendo: “Eu sempre senti que nós ganhamos comportando-se melhor do que os cristãos”.

O polêmico debate foi reconstituído de forma pythonesca no filme Holy Flying Circus, exibido pela BBC em outubro de 2011.

Thiago Meister Carneiro

Jornalista Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 38 anos na cara. Às vezes grava o podcast Pythoneando, e às vezes assiste Monty Python na Netflix. Autor do livro "A História (quase) Definitiva de Monty Python"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *