Eric Idle: Setenta Anos sem Tirar

eric idleEntão é isso, então. Cinquenta anos e vinte. Feito e passado.

Exceto que, hoje em dia, graças à medicina moderna e melhores dietas, todos nós podemos viver mais do que prevê o tempo bíblico.

Setenta é o novo preto.

Todos os tipos de pessoas queriam falar comigo, por ocasião do meu septuagésimo aniversário, como se eu estivesse desfilando pelo Tâmisa ou lançando um novo produto. Mesmo o velho e bobo Daily Mail quis me entrevistar, como se eles não tivessem feito o suficiente para danificar velhas amizades.

Felizmente, John Cleese e eu tivemos muito cuidado em reparar o mal que eles nos fizeram, prejudicando o nosso relacionamento, e eu não me canso de sempre lembrar da história que inventaram daquela vez.

Monty Python em guerra! Sério?

Eu vou te dizer o que é uma guerra, filho. Nasci durante uma guerra. Uma filha da puta de uma guerra. Lá pelo dia 29 de março de 1943, a Grã-Bretanha já sofria por três anos e meio em uma guerra impossível contra Hitler. Bombardeios aéreos noturnos, barcos afundando alimentos, a sensação de isolamento de um continente completamente dominado pelo nazismo.

Nós nunca deveríamos ter sobrevivido, porque graças à vontade indomável de Winston Churchill, lutamos sozinhos, até que Hitler declarou guerra contra os EUA, poucos dias depois de Pearl Harbor. Só então pudemos ter um pouquinho de esperança de sobrevivência.

Mais dois anos de terror e derramamento de sangue se passaram até que Hitler finalmente se suicidou em seu bunker em Berlim. Então, o pesadelo dos anos da Guerra Fria, o stalinismo perante a Europa devastada, a Cortina de Ferro, o pesadelo da corrida armamentista nuclear, e em casa, racionamento, escassez e devastação por toda parte.

E você ainda acha que o seu mundo é mau!

Ah, não, a internet caiu…

É como se eu tivesse nascido em um planeta completamente diferente.

  • Sem comida. Spam em vez de carne e racionamento de comida até meus dez anos.
  • Sem TV. Eu sequer vi a coroação da rainha em 1952.
  • Sem computadores, é claro. Só fui ter o meu em 1990.
  • Sem Internet.
  • Sem telefones celulares. Na verdade sem telefone algum.
  • Sem vídeos ou gravações de qualquer tipo.
  • Sem carro. Eu só fui ter um aos 24 anos.
  • A Índia não existia. Não até a separação de 1947.
  • Nem Israel. Até 1948.
  • Sem voos com passageiros.
  • Sem voos espaciais. (A não ser pelos foguetes disparados pelo nazista Werner Von Braun.)
  • Sem satélites.
  • Sem buracos negros.
  • Sem universo infinito.  Nós ainda estamos tentando entender o quão grande é a maldita coisa.
  • Sem a matéria escura.
  • Sem sexo.

Bem, obviamente não para mim, porque eu era muito jovem, mas teve bastante sexo durante a guerra, ou nós  não estaríamos aqui. A liberação sexual não aconteceu até a década de 60, que não começou até 1963. Ela atrasou. Os anos 60 são superestimados. Todo mundo parecia estar se divertindo mais do que eu. Ainda assim, a década nos trouxe coisas divertidas como rock n’ roll, drogas e, é claro, a pílula anticoncepcional, que libertou as mulheres do terror do aborto e da gravidez indesejada, ficando apenas com o terror de dar à luz um tonto como eu, que demora 20 anos pra se formar.

Já passou muito tempo e não quero te entediar ou te irritar com todas essas minhas memórias. Sou um grato cliente consumidor do planeta Terra.

Essa não é uma premiação, mas eu gostaria de agradecer (entra musiquinha) minha esposa, meu filho e filha, minha ex-mulher, minha família, meus sogros, meus muitos amigos e meus colegas Python. Na verdade, agradeço a todos, menos aquele baixinho bastardo que nos processou… (música baixando aos poucos).

Tem sido uma vida ótima e tenho me divertido muito.

Ainda é um maravilhoso privilégio ter nascido nesse planeta. Fico feliz por isso todos os dias.

Obrigado pelas memórias.

Obrigado pela jornada.

E obrigado aos fãs, aos trolls, aos tuiteiros, aos blogueiros e a todos por sua bondade e desejos de felicidade.

Papa Eric de Redditch

(traduzido do post “Seventy Not Out”, postado no dia 28 no blog oficial do Eric Idle)

Thiago Meister Carneiro

Jornalista Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 38 anos na cara. Às vezes grava o podcast Pythoneando, e às vezes assiste Monty Python na Netflix. Autor do livro "A História (quase) Definitiva de Monty Python"

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